Clínica com bebês com sinais de risco em saúde mental

Conferência proferida por ocasião do lançamento do livro

Inserção de crianças e adolescentes na cultura – caminhos possíveis.

RAMOS, Ana P.; ZIMMERMANN, Vera B.
São Paulo, Instituto Langage

Entre tantas mudanças sociais e culturais que provocam igualmente inúmeros movimentos no psiquismo humano, nós, profissionais que temos o processo de constituição psíquica e o desenvolvimento infantil como nosso objeto de trabalho, corremos o risco de paralisar frente ao panorama que parece se descortinar a partir destas mudanças.

Vivemos o que Bauman nomina como a ‘Problemática da dissolução das narrativas e da fragmentação do tempo no cotidiano e seus efeitos sobre o sujeito’, os ditos ‘tempos líquidos’. [1]

Paralelo a velocidade temos a tentativa de se estabelecerem relações politicamente corretas, numa prosódia que elimina a riqueza dos acordes dissonantes do amor e do ódio convivendo e se alternando nas relações humanas; também, a busca por manuais assépticos de conduta nos primeiros cuidados do bebê, tirando de cena o jogo intergeracional das avós e mães, cujos conflitos iniciais, mesmo parecendo maléficos, são riquíssimos na sua essência identificatória e na riqueza prosódica que produzem nas primeiras cenas com o bebê.

E nossas ferramentas psicanalíticas, como ficam neste contexto?

As concepções clássicas sobre a constituição do sujeito precisaram ser revisitadas, na medida em que recebemos resultados de novas pesquisas advindas do campo da psicologia do desenvolvimento e da neurociência (genética, epigenética e neuroplasticidade) sobre as capacidades e competências do bebê, por exemplo. [2] Investigações atuais evidenciam que o bebê saudável tem uma organização complexa e potencialidade para entrar em relação com seus cuidadores primordiais desde o início da vida; que um bebê pode desorganizar o holding e a mãe que nos chega destruída pode ter isto como causa.

Nosso trabalho precisou criar uma nova semiologia transdisciplinar com novas técnicas, como o uso de filmagens, amplificando o campo de sinais, tanto para que o analista possa dividir seu trabalho com uma equipe multidisciplinar, como para poder melhor realizar um projeto singular por onde poderá caminhar sua intervenção e sustentar a não resposta de um bebê.

Tivemos que acrescentar ao nosso repertório de conceitos da técnica psicanalítica, os de `reanimação do bebê’ e ‘reconstrução dos pais’, graças ao trabalho de Laznik e suas equipes multidisciplinares. [3]

O pensamento causal linear foi subvertido pelo entendimento de que as formações sintomáticas se constituem, a partir de uma rede de sobredeterminação e a plasticidade como conceito chave para diálogo entre neurociências e psicanálise passou a ser um dos principais argumentos que asseguram a eficiência da intervenção precoce em bebês.  Hoje entendemos a aproximação da psicanálise e das neurociências pela via da complexidade e não de causalidades simples.

Continuamos a ter como norte uma tarefa que aposta nas possibilidades de o sujeito bebê vir a ingressar no mundo simbólico, uma tarefa de investir em uma ilusão antecipatória. Espera-nos, portanto, os desafios de ajudar quem ocupa as funções materna e paterna a terem êxito na tarefa de recalcar simbolicamente no bebê os movimentos do arco-reflexo, as imitações e inseri-los em um circuito de sentidos e palavras. Muitas vezes, precisamos intervir onde ocorrem falhas na capacidade de um sujeito psíquico incipiente de transformar grandes `quantidades de energia psíquica em pequenas quantidades`, conforme Freud descreveu em 1895 no seu texto Projeto de uma Psicologia para Neurólogos, [4] texto no qual traça um primeiro modelo de aparelho psíquico. Ou seja, a dificuldade e/ou impossibilidade do bebê fazer ligações com aquilo que recebe de estímulos, de fazer escoar os excessos destes estímulos por um caminho da significação, são ainda nossos desafios clínicos com as constituições psíquicas incipientes.

Tudo isto, sempre tendo presente a importância de narcisizar a figura materna, a fim de assegurar seu papel constitutivo no desenvolvimento psíquico e corporal do bebê.

Ainda, nós, psicanalistas, além de escutar as manifestações corporais do bebê e ajudar as funções parentais a nominá-las, hoje precisamos incorporar o conceito de ‘fluxos sensoriais’ (Bullinguier), [5] que são modos de funcionamento do corpo e que muitas vezes precisam ser trabalhados multidisciplinarmente.

Também, neste trabalho clínico, o mundo psíquico dos pais é necessário como um instrumento para a ação terapêutica do analista já que a constituição do psiquismo do bebê está diretamente relacionada ao lugar ocupado por ele na fantasia e no discurso dos pais. Assim, precisamos acompanhar e intervir nas interações entre o bebê e seus cuidadores, para que o bebê possa modificar os fantasmas parentais que lhe são oferecidos, caso estes estejam causando sofrimento psíquico e obstaculizando seu potencial de desenvolvimento.

Nosso desafio é detectar e trabalhar possíveis obstáculos, provenientes do inter-jogo de fragmentos inconscientes ou não das histórias edípicas e pré-edípicas dos pais, atualizadas na relação com o filho (a). Esta tarefa é paralela ao trabalho de construção de uma temporalidade constitutiva do bebê. Muitas vezes precisamos intervir/ reconstruir um tempo histórico da mãe em transferência, dentro dos limites de nosso trabalho. [6]

Para finalizar, compete-nos continuar lutando pelo espaço da palavra que atribui sentido, lutar por ‘encontros’ que possibilitam representações psíquicas, que implicam o sujeito frente ao seu desejo.

Continuar nas tarefas que auxiliam corpos biológicos ingressarem num circuito pulsional, corpos sensoriais advirem ao mundo das representações verbais e se incluírem em redes de uma comunicação compartilhada no social. Mais do que se preocupar com a etiologia, devemos nos preocupar em desenvolver ferramentas para aprimorar nossas observações sobre os indícios perceptivos e mecanismos sensoriais reguladores da relação mãe-bebê.

É este horizonte que organiza o fazer da equipe Projeto Bebês com Sinais de Risco em Saúde Mental do CRIA/UNIFESP. Um fazer multidisciplinar que se torna transdisciplinar na medida em que elege a constituição psíquica e o desenvolvimento como norte de trabalho!


Bibliografia

[1] Bauman Z . Tempos líquidos. Rio, Zahar, 2007.

[2] KLAUS, Marshall; KLAUS, Phyllis. O surpreendente recém-nascido. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.

[3] LAZNIK, Marie Christine. A hora e a vez do bebê. São Paulo: Instituto Langage, 2013.

[4] FREUD, S. (1895) Projeto para uma Psicologia Cientifica. In: Edição Standar Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago,1996. V. 1, p. 253.

[5] LAZNIK, M.C.; CHAUVET, Muriel. Tratamento psicanalítico de um bebê com risco de autismo e seu tratamento concomitante em sensoriomotricidade. In Inserção de crianças e adolescentes na cultura- caminhos possíveis. São Paulo: Instituto Langage, 2016.

[6] ARAGÃO, R.O. – Quem é esse bebê, tão próximo, tão distante? In Os cuidados no início da vida. Org. Atem, L.M., São Paulo, Casa do Psicólogo, 2008.


Vera Blondina Zimmermann
Psicanalista, Membro do Depto de Psicanálise do SEDES SAPIENTIAE, Dra. em Psicologia Clinica-PUC/SP

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Dra. Vera Blondina Zimmermann
Dra. em Psicologia Clínica - PUC-SP, Professora afiliada do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo, Coordenadora do Núcleo Bebês com Sinais de Risco em Saúde Mental no mesmo departamento. Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto SEDES SAPIENTIAE onde coordena o curso Clínica Interdisciplinar da Primeira infância.

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