Sinal de Alerta: A criança não consegue ficar parada, concentrar-se e vai mal na escola? Pode ser déficit de atenção.

Jornal o Estado de São Paulo – Digital – 29 de julho de 2007 – versão impressa
Por Fabiana Caso

O empresário Joseph Bukstein Vainboim, 25 anos, estudou em colégios tradicionais paulistanos, até o final do ensino fundamental. “No maior deles não tinha apoio nenhum. E a psicóloga ainda foi falar para os meus pais que eu era um moleque”, fala, contando que só teve o diagnóstico de déficit de atenção com profissionais fora da escola. Vainboim cursou o ensino médio nos Estados Unidos e de volta ao Brasil montou com sócios a Upgrade Centro de Treinamento, uma escola de reforço para alunos do ensino médio e preparatório para o vestibular.

Por definição, o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é uma dificuldade de concentração em qualquer atividade. “Se a criança chega em casa e fica duas horas jogando vídeo game não é déficit de atenção”, alerta a psicóloga Vera Zimmerman, co-autora do livro Singularidade na Inclusão, Estratégias e Resultados (Pulso Editorial), e pesquisadora de problemas de aprendizagem. Vale o alerta, porque o transtorno anda na moda e servindo de justificativa para qualquer problema infantil, de leve a grave.

Segundo o psiquiatra e neurologista Paulo Mattos, presidente da Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA), no Brasil cerca de 5% das crianças e jovens têm TDHA. Trata-se de um transtorno neurobiológico de origem genética, com início na infância e que costuma persistir por toda a vida. As maiores alterações são hiperatividade, impulsividade e desatenção. Os profissionais aptos a tratar da doença são o neurologista e o psiquiatra, incluindo, às vezes, um psicólogo. Em alguns casos, exige medicação.

Se o tratamento não tiver início logo, e o déficit for confundido com molecagem, corre-se o risco de desencadear o efeito bola de neve: a criança não consegue se concentrar e, por conseqüência, não aprende nem assimila os conteúdos da escola. E sente-se cada vez mais ansiosa e com a auto-estima baixa por ver a frustração dos pais e professores. “Isso acaba virando um problema cognitivo, que pode ser confundido com uma patologia mental”, explica psicóloga Vera. Quando se toma consciência de que a falta de atenção tem uma justificativa, surge a questão: que tipo de escola está preparada para lidar com o TDHA?

Na opinião do presidente da ABDA, nas turmas grandes, fica difícil o professor perceber que o aluno tem o transtorno, quanto mais dispensar uma atenção especial. A ABDA promove cursos de capacitação para que os professores aprendam a lidar com o TDAH. “Muitos deles vêm achando que vamos ensinar como controlar essas crianças, e não é isso”, explica. “Quando há déficit, o professor não pode ficar chamando a atenção desse aluno que já tem a auto-estima baixa. Uma boa solução é chamá-lo para ser uma espécie de auxiliar em sala de aula: pedir para apagar a lousa, pegar o giz. Dessa forma, ele não fica parado e está fazendo algo positivo.”

A psicóloga Vera ressalta a importância de a criança ter um vínculo com o professor ou outro funcionário da escola. “É necessária uma pessoa que a ajude a se organizar com os cadernos, as tarefas e o resto, como uma espécie de tutor.” Sentar próximo à lousa também ajuda, assim como ter um único professor para todas as matérias.

Reforça que o ideal seria que todas as escolas, particulares e públicas, estivessem preparadas para lidar com o TDAH. “O problema é que a estrutura das escolas ainda é focada na padronização. Isso impede que o professor invista nas particularidades individuais”, observa.

PERSONALIZAÇÃO

Algumas poucas escolas da capital paulista seguem a filosofia citada pela psicóloga, concentrando-se em sanar dificuldades de aprendizado. O colégio Graphein, que há 17 anos oferece ensino da pré-escola até o preparatório para o vestibular, cria um projeto de estudo individualizado depois de uma avaliação do histórico pessoal. “O déficit de atenção exige um projeto de estudo a partir do que interessa a esse aluno”, diz uma das diretoras, a psicoterapeuta Nivea Maria Fabricio, também co-autora do livro Singularidade na Inclusão, Estratégias e Resultados.

As salas de, no máximo, nove alunos são montadas considerando o interesse de cada um. A matemática, por exemplo, pode ser ensinada a partir da culinária, marcenaria, fotografia ou até de uma compra em mercado. “Tudo depende de você motivar o aluno e fazê-lo perceber que ele é capaz de dar conta do recado.” Nivea destaca que o TDHA não tem nenhuma relação com nível de inteligência. Seus ex-alunos entraram nas melhores faculdades e são hoje profissionais bem-sucedidos. “Quando chegam aqui, quase sempre há um problema de auto-estima, que desencadeia ansiedade, angústia e mais inquietação. O importante é perceberem que conseguem aprender.”

O advogado João Eduardo Negrão de Campos transferiu o filho João Pedro, de 16 anos, para o Graphein no início deste ano. Ele teve o diagnóstico cedo, consultou-se com neurologistas, psiquiatras e tomou medicamento por quatro anos até ter alta. João Eduardo e a ex-mulher tentaram diversos colégios tradicionais, que não funcionaram. Agora, João Pedro tira ótimas notas: só A e B.

NOVO ESQUEMA

Há 32 anos, a Escola Novo Ângulo, Novo Esquema oferece ensino fundamental e médio para crianças com peculiaridades. A pedagoga Rita de Cássia Rizzo é uma das quatro diretoras. “Entendemos que as pessoas são diferentes e todas podem aprender.”

A educação é organizada nos ciclos, básico, intermediário e avançado. Isso significa que o aluno tem um tempo expandido para absorver os conteúdos. “Usamos recursos como a construção de pipas e jogo de xadrez nas aulas de matemática”, conta Rita.

O programa personalizado é criado depois de uma avaliação criteriosa com os pais e a própria criança. “Quase sempre, um pouco de boa vontade e um olhar para a necessidade do outro são suficientes”, acredita Rita. “Também ensinamos a criança a criar mecanismos de defesa para conviver com o transtorno. Afinal, todos temos algum ponto fraco”.

Estadao.com.br

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Dra. Vera Blondina Zimmermann
Dra. em Psicologia Clínica - PUC-SP, Professora afiliada do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo, Coordenadora do Núcleo Bebês com Sinais de Risco em Saúde Mental no mesmo departamento. Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto SEDES SAPIENTIAE onde coordena o curso Clínica Interdisciplinar da Primeira infância.

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