Questionando o Estatuto do Desenho na Psicanálise Infantil

“Quizá sea necessario, a riesgo de redundancia, insistir en
que no lo es la inversión de un imperialismo lo que buscamos,
pasando así de un “logo” a un “grafoncetrismo”. Lo que faz
falta revindicar es un “campo de dispersiones” (Foucault)
onde hablar, jugar, graficar, modelar y otras manifestaciones
simbólicas coexisten en una trama polimorfa y conflitiva, a la
manera de escrituras que no reconecen centro alguno en una
de ellas de los que las restantes funcionarían como derivados,
como subordinaciones o como complementos ilustrativos.1 “El
Niño del dibujo – Marisa Rodulfo

As associações verbais nos darão o verdadeiro deciframento do material gráfico – Este implícito, já dado na Psicanálise infantil, tem se imposto como verdade única em relação à produção gráfica da criança. Nesta medida, esta afirmação alcança o estatuto de sintoma dentro da teoria psicanalítica e como tal necessita ser questionado.

Esta revisão do entendimento do material gráfico, encontra principal sustentação quando tratamos da Psicanálise de fronteira, onde a escuta e a palavra mostram-se prejudicadas enquanto formas únicas de investigação, colocando pontos cegos no analista que não a transcende. Quando se trata de sujeitos em constituição, onde a repressão ainda não se fez instalar, a busca da associação verbal torna-se insuficiente para o trabalho psicanalítico. O referencial técnico da clínica das neuroses não abarca estas problemáticas.

Os elementos do grafismo não tem relação biunívoca com os elementos discretos de linguagem: a linguagem verbal é sustentada na dupla articulação e na oposição entre língua e fala, o que não acontece com as práticas do jogo e do graficar. (2) Na verdade, a predominância do modelo linguístico para a teorização psicanalítica levaram a tradução de que o “jogo é uma linguagem”.

Analisando os atos do jogo, suas operações espaciais, mímicas, configuração, volume, enfim, a terceira dimensão característica do modelar, a forma e o relevo, colocam-nos questões que não encontram respostas na redução verbal. Na Psicanálise, costuma-se pensar que tudo é escuta da linguagem e acabamos perdendo a noção do quanto se deve escutar e o que escutar. Enfim, o que e como é necessário decifrar-se por outros meios.

A tendência fonocentrista do pensar o desenho infantil em Psicanálise reduz as possibilidades de fazer progredir a teoria à respeito dessa produção, pois impede de serem observados os detalhes que fogem à regra. Freud não teve essa dificuldade, pois para ter conseguido descobrir o sentido do jogo de carretel e observar os detalhes da vida cotidiana, precisou usar outros recursos, além do verbal, revelando estar atento a fatores que fugiam à regra. (3)

Esta tendência lembra a definição de Derrida sobre o Ocidente, caracterizando-o como uma cultura que privilegia a linguagem verbal em detrimento do escrito, sendo o último uma reprodução do primeiro. Para ele há uma raiz que denomina de “fonocêntrica”, onde “há um interior onde reside o pensamento e um exterior onde reside o escrito”. (4)

Um pouco do percurso da Psicanálise Infantil e a questão da primazia verbal:

É inegável que o aporte Kleiniano legitima um espaço decisivo para o jogo, colocando-o como substitutivo da palavra e da necessidade de decifrar seus símbolos. Porém, Melanie Klein mantém as teses de que o jogo é igual a associação livre e sustenta a primazia da associação verbal. (5)

Sophie Morgenstern que foi também uma das pioneiras no trabalho psicanalítico com crianças, foi a primeira a utilizar o desenho como aproximação do inconsciente. Ao trabalhar um caso de mutismo infantil, usa esta técnica de forma especial, ou seja, sem reduzi-la a uma técnica ocasional. Sustente que: “… Com um trabalho analítico consegue-se, reconstruir, graças a estes desenhos em aparência caóticos e díspares, uma narração gráfica que conduz a origem destas produções; ao traumatismo afetivo e aos sentimentos reivindicadores que o inspiraram”. (6)

Apesar de reconhecer que no desenho há uma desfiguração e um ocultamento necessário, persiste, como Melanie, na busca da confirmação verbal como prova da realidade: “… O desenho brota mais diretamente do inconsciente e consegue assim esconder do seu autor seu verdadeiro conteúdo… Não compreendendo o sentido de seus desenhos e tendo o maior interesse em não revelá-lo, a criança sente-se inclinada mais em recusar do que a ajudar-nos a decifrar o simbolismo de suas criações.” “Desde o momento em que Jacques fala… repassei com ele todos os desenhos pedindo-lhe sua interpretação… desta maneira obtive uma confirmação muito clara…” (7) Nesta situação, o verbal é supérfluo, apesar dela considerar que é ele que valida os resultados. Aqui fica evidente o valor do desenho como meio de alcançar as formas patológicas e de trabalha-las. Mas a confirmação verbal que ela busca, parece dizer da sua não compreensão de que os mesmos funcionavam como fonte de informações da etiopatogênia e ao mesmo tempo, também organizadores da representação – palavra.

Continuando a rastrear a história da Psicanálise Infantil, encontramos com Arminda Aberastury, inicialmente, o lugar do grafismo como útil “para aqueles casos em que há uma inibição do jogo muito intensa”. (8) No entanto, cita numa epígrafe, em Aportaciones al Psicoanálisis de niños um autor chamado Barthes: “Há, em primeiro lugar, uma variedade prodigiosa de gêneros distribuídos em substâncias diferentes como se toda a matéria fosse boa ao homem para confiar-lhes seus relatos: o relato pode ser suportado pela linguagem articulada, oral ou escrita, pela imagem, fixa ou móvel, pelo gesto e pela combinação ordenada de todas as substâncias.” (“Introduçción al análisis estructural de los relatos”).

Será com Winnicott que a posição metapsicológica prestigiosa da fala encontra certas modificações. Sustenta que há uma oposição entre jogo e jogar-jogando, regatando uma função mais ampla do que o jogo como defesa contra a ansiedade: uma manifestação criativa do inconsciente da criança, dedicada a fabricação de objetos assim como de um espaço transcisional. (9)

É um conceito novo de “jogar” na medida em que ele fala da “fabricação de objetos” através do jogo. Vale também para os adultos e não é submetido ao verbal: “… devemos esperar que o jogar resulte tão evidente na análise dos adultos como palavras e por certo prazer no sentido de humor”.

Foi com este autor que ficou discriminada a força do traçado independentemente do problema do sentido, quando da sua criação do “jogo do rabisco”. Porém, Winnicott, apesar de sair do fonocentrismo, busca clarear os desenhos das crianças através do discurso dos pais, elegendo-os, às vezes, como garantia do trabalho feito.

Outros trabalhos psicanalíticos seguem esta nova posição. Marisa Rodulfo (10) cita o trabalho de Francisco Tosquelle com crianças atrasadas, onde ele realiza um estudo sobre ao diferentes momentos da estruturação subjetiva a partir da “situação regressiva da reeducação terapêutica analítica”. Neste trabalho o grafismo é um meio de escrever o corpo, dando ao anlista a possibilidade de avaliar o grau de desenvolvimento que o aparato psíquico alcançou, mais ou menos além do conteúdo inconsciente, não se detendo a uma problemática conflitiva apenas:

1. O primeiro corpo vivenciando como vazio, traduzido por círculos; 2. Dentro da pluralidade de círculos prevalece o círculo só ou dois círculos aproximados; 3. O desenho de círculos unidos em forma de peças; 4. O círculo se alarga, tomando a forma freqüente de triângulo ou trapézio. Primeiras questões sobre a internalização ou externalização objetal; 5. Etapa muscular. Integração de mãos e pernas. Conquista do espaço e reorganização do espaço interior; 6. Aparece a casa em primeiro lugar como quadrado ou retângulo, diferenciado como próprio externalizado; 7. A casa se ordena nas próprias divisões interiores que se dão nas habitações, portas e janelas; 8, A casa vai se preenchendo de pais. Em primeiro lugar, quando se os expulsa do quadrado de forma de sol ou de lua, encontrando-nos agora como um ego constituído, frente aos problemas do Édipo e dos irmãos.

Este tipo de teorização permite-nos acompanhar a passagem que a criança faz de um tempo lógico a outro, através da transferência.

Com Françoise Dolto, encontramos um estatuto diferente para o grafismo. Além do que vinha sendo trabalhado, ela destaca a necessidade de encararmos o grafismo como também “um autêntico fantasma representado”: “…nas crianças pode-se ilustrar pelo que dizem através de seus grafismos e composições plásticas, suportes de seus fantasmas e fábulas na sua relação transferencial”.(11) Dolto também utilizava a estratégia de pedir à criança que desenhasse o que estava tentando dizer, ou seja, procurava decifrar algo verbalizado através do figural, o que invertia o estatuto teórico vigente.

Sintetizando as abordagens que prevaleceram no movimento psicanalítico até neste momento, temos o grafismo sendo reduzido basicamente em: técnica de exploração, ao contexto da ilustração, ao escutado nas entrevista com os pais, as associações verbais da criança, a um simbolismo estabelecido ou ao transferencial.

Ainda, a propósito do desenho infantil e seu uso na cura psicanalítica encontramos uma das contribuições mais originais e atuais na obra do psicanalista Sami-Ali, principalmente na sua obra “o Espaço Originário”. (12) Sua teoria parte de uma equação primitiva para a subjetividade entre o espaço e o corpo, onde toda a conquista no registro do primeiro, não pode realizar sem o segundo. Num dos capítulos “O Espaço da Fantasia”, ele faz uma reflexão sobre o grafismo discriminado do verbal, onde não há idéia de que o verbal é a verdade única:

1. O desenho como clássica realização do desejo no sentido Freudiano da Interpretação dos Sonhos. Vai além, dando ênfase no corpo como “mediador e veículo desta realização”. 2. Destaca o valor da negatividade do figural (desenhos onde o essencial se omite, onde o vazio os articula). 3. O espaço da folha pode funcionar como espelho que reflete a imagem do sujeito e cabe ao analista descobrir a que produções da criança corresponde esta conceptualização. 4. O espaço onde se desenvolve a atividade gráfica pode confundir-se com a espacialidade do próprio corpo. Assim, o grafismo funciona como elemento diagnóstico diferencial privilegiado.

Pensando outros aspectos da clínica do figural:

É inegável que o grafismo traz consigo elementos do passado e que a fantasmática que emerge ali é reconstruído a posteriori. Não se trata apenas de uma fantasia pré-existente que encontra sua veiculação através do grafismo, mas porque existiu tal produção que se fez possível, só neste instante, ter acesso a este material.

Para Marisa Rodulfo, os desenhos são também uma tentativa de cura à respeito da história e a pré-história e não, apenas, uma sujeição estática a eles. Segundo ela, “Não sendo apenas uma ilustração de um estado de coisas, podemos assistir através dele, numa escrita em imagens, a gênese, o desenvolvimento e também, a modificação de um estado de coisas.” (13) p. 52

A resistência do analista para com este material é da mesma ordem da que ocorre com a análise dos sonhos e do delírio, com a diferença que no primeiro caso, na maioria das vezes, não há elaboração secundária que venha socorre-lo, para que elabore um entendimento. Não bastará a “escuta” com os olhos, mas é necessário desenvolver um olhar capaz de apreender o figural na sua especificidade, respeitando-o como texto. Esta incomodidade do analista frente o figural o faz resistir ao trabalho, da forma que ouvimos freqüentemente queixarem-se: “ela não fala nada!”, ou então, prende sua atenção naquilo que os teóricos da Guestalt chamam de “boa forma”.

Não se trata de colocar o figural num estatuto de supremacia, mas no lugar específico que Freud lhe deu através da teoria dos sonhos: além de manifestação de um desejo inconsciente, uma produção, trabalho do psiquismo e não apenas sua tradução.(14) Neste raciocínio, escolhe-se um caminho de decomposição dos elementos figurais, abandonando a sedução do globalizante. Podemos focar as idéias de Freud no seguinte tópico: A imagem visual passa a ser concebida “pictograficamente”: “Si reflexionamos en que los medios de representación en los sueños son principalmente imágenes visuales y no palabras, veremos también que és mas apropriado comparar los sueños con un sistema de escritura que con un lenguaje. De fato, la interpretación de los sueños es en todo análoga al desciframiento de una antigua escritura pictográfica, como los jeroglíficos egipcios. En los dos casos hay ciertos elementos que nos están destinados a ser interpretados (o leídos), pero que están solamente marcados para servir de determinantes, es decir, para establecer el significado de algún otro elemento. La ambiguidad de los diferentes aspectos del sueño encuentra un paralelo en otros antiguos sistemas de escritura. También se da aquí la omisión de relaciones variadas que, en los dos casos, deben ser provistas por el contexto.”

Também, nos textos do “Projeto de uma Psicologia para Neurólogos” e na “Carta 52” a Flies, a culminância no conceito de representação-coisa não diminui a importância do lugar no figural. (15)

O conceito de figural não abarca somente o figurativo, bem como o de escritura não abarca somente o de escritura fonética. Trata-se de examinar o trabalho do TRAÇO e as condições que o põe visível.

Nascimento do traço: a garatuja

A experiência do primeiro balbuceio do traço, constitui-se num momento ímpar do processo de subjetivação. Marisa Rodulfo empresta de Tosqueles (16) o termo “magma”, originado da geologia, capaz de traduzir o fenômeno a que esta experiência descreve: “massa vermelha fundida de grau líquido, que contém em si mesma de uma maneira radicalmente instável, elementos em estado sólido e gasoso. Infra estrutura do córtex terrestre, corresponde ao originário do qual, em formações sucessivas, vai se desprendendo do resto, através de pequenas e grandes catástrofes”. Traduzindo para nosso modelo, seria aquilo que traduz as sensações mais arcaicas e que desembocam na representação gráfica – formações figurais ainda não figurativas – fragmentos em curso de diferenciação.

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Dra. Vera Blondina Zimmermann
Dra. em Psicologia Clínica - PUC-SP, Professora afiliada do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo, Coordenadora do Núcleo Bebês com Sinais de Risco em Saúde Mental no mesmo departamento. Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto SEDES SAPIENTIAE onde coordena o curso Clínica Interdisciplinar da Primeira infância.

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