Quando é hora de?

 

09/10/2005
[por Débora Yuri / fotos Maria do Carmo]

 Quando é hora de?

Permitir piercing, tatuagem e maquiagem – dar o primeiro sutiã ou celular – falar sobre morte e sexo – liberar a internet – deixar dormir fora – experimentar álcool – e outras dúvidas dos pais.

MANUAL PARA SAIR DO NINHO

Ter filho é descobrir/conhecer/inventar e conformar-se com a existência de novo calendário. A cria vem com uma cronologia de necessidades e desejos mutantes, sempre diferentes da experiência pessoal de cada pai/mãe, porque o tempo não pára e tudo acontece cada vez mais cedo. Aos temas que já estavam aí, ainda que sob constante revisão -maquiagem, saltinho, sexo, horários- somaram-se internet, piercing, tatuagem, academia e outras novidades incorporadas ao universo infanto-juvenil. Decidir sobre eles é um desafio que cada família enfrenta como quer (e pode), mas a opinião de gente especializada é uma baliza e tanto. Nove especialistas ouvidos pela Revista, entre educadores, psicólogos, psicanalistas e pediatras, esclarecem 22 assuntos que costumam despertar dúvidas e atormentar cabeças. Confira a seguir.

Quando deixar dormir fora de casa

Um “exercício gradativo”: é assim que a psicanalista infantil Vera Zimmermann, professora da Unifesp, apelida esse “acontecimento infantil”. “Dar liberdade para se afastar da companhia dos pais é importante. Por volta de sete anos, a criança já pode iniciar as saídas para dormir na casa de amigos”, diz. “Conhecendo bem a família com quem a criança irá passar a noite, não há problemas”, completa a coordenadora Ana Lúcia de Carvalho Pereira, do colégio Interlagos.

Falar sobre sexo

Unanimidade: em qualquer idade. “Sugiro falar desde sempre, sempre que a criança estiver interessada e de um jeito que ela entenda”, diz a psicóloga Magdalena Ramos, da PUC-SP. “Não há momento solene e preciso para falar ‘tudo’”, reforça a psicóloga Lidia Aratangy.

Dar um celular

Tópico polêmico, justamente envolvendo o atual sonho de consumo da garotada. Alguns especialistas sugerem liberá-lo a partir dos dez anos; outros são contrários ao uso na infância e pré-adolescência.

“Por uma questão de segurança do filho, e não para controle dos pais, é bom que ele tenha um celular quando sair sozinho”, diz Lidia Aratangy. “Mas um aparelho sem grandes sofisticações, só para comunicação, de preferência pré-pago.” Isso ajuda a não alimentar o consumismo e faz com que a criança respeite os limites dos créditos de que dispõe -além de aprender que tudo tem preço.

Vera Zimmermann ressalta que é preciso ficar atento ao desenvolvimento da criança. “Se ela sabe manejar e não quer apenas por desejo consumista, o celular pode ser um reforço diário ao vínculo familiar. Coisas como um torpedo dizendo ‘Eu te amo’, um telefonema para monitorar a rotina, uma pergunta sobre o almoço ou a natação”, exemplifica.

Mas também pode prejudicar, acredita a educadora Dirce Moretti, do colégio Santo Américo. “Vejo que o celular tem limitado o desenvolvimento da autonomia de muitos e é particularmente ruim para aqueles que dependem da ajuda de um adulto para resolver qualquer probleminha que aparece”, diz.

Falar sobre morte

Outra unanimidade: não há idade certa. “A sociedade moderna tem pavor da morte, e as famílias a escondem de seus pequenos. Alguns pais me perguntam se devem levar o filho ao velório ou enterro de um parente e se isso pode causar traumas. Eu respondo que a criança, mesmo pequena, precisa dessa despedida”, conta Jorge Silvino da Cunha Neto, professor de ensino religioso do colégio Santo Américo.

Pior, diz ele, será a criança descobrir mais tarde que alguém lhe contou uma história falsa e se sentir enganada ou abandonada. “Privar os filhos desses sofrimentos é colocá-los num mundo plastificado”, acha.

Deixar assistir a qualquer programa na televisão

Transforme a criança de esponja em filtro, recomenda a psicóloga Lidia Aratangy. “Praticamente qualquer programa pode ser assistido junto com os pais, se estes fizerem o serviço de inocular a crítica. O melhor é ajudar o filho a formar uma peneira seletiva sobre tudo o que vê e ouve, já que é impossível controlar tudo a que crianças e jovens estão expostos.”

Viajar sem os pais

Tudo bem mesmo antes da adolescência, desde que em companhia de ao menos um adulto de confiança. “Se forem bem acompanhadas, basta que as crianças tenham competência para se vestir, tomar banho e se comunicar e já tenham passado pela experiência de dormir fora de casa, sem os pais ou avós”, sugere Lidia Aratangy. É melhor começar por períodos curtos, de um final de semana, antes de enfrentar um acampamento.

Explicar a puberdade

A puberdade -que não tem idade certa para chegar mas, em geral, acontece dos 9 aos 13 anos nas meninas e de 9 aos 14 nos meninos- exige tantos cuidados como a infância. No caso delas, é adequado levar ao ginecologista nas primeiras menstruações. Meninos geralmente prescindem de médico, mas, tanto quanto elas, devem ser preparados para as mudanças que virão.

Passar maquiagem

Os educadores fazem coro: não se deve estimular a vaidade feminina antes da puberdade, e a faixa etária mais adequada para soltar o freio de mão é a dos 14-15 anos. “Crianças devem usar maquiagem apenas por brincadeira”, diz Magdalena Ramos. A rotina infantil tem situações ideais para isso. “Elas têm fascinação por fantasias, maquiagens e máscaras. Recomendo muito teatro, festas a fantasia e balé”, completa Dirce Moretti.

Usar sapato com saltinho

Uma vez ou outra não tem problema, mas, sistematicamente, só na adolescência. “Durante a fase de crescimento, as articulações são mais frouxas, aumentando o risco de lesão do pé”, explica o pediatra Adalberto Stape, do hospital Albert Einstein. “Recomendo liberar entre 11 e 12 anos, desde que o uso não seja freqüente, porque o esqueleto ainda está em construção”, diz a pediatra Sandra de Oliveira Campos, professora da Unifesp. Após essa faixa etária, libere no máximo uma vez por semana, para a garota ir a festinhas ou “eventos sociais” importantes. Saltos altíssimos estão proibidos.

Dar o primeiro sutiã

Velho sonho de consumo das meninas -hoje meio desglamourizado pelo silicone, é verdade-, a senha mágica de passagem para o mundo das “mocinhas” continua tão atraente como antes. Mas ninguém deve colocar a carroça à frente dos bois.

Os peitinhos começam a aparecer por volta dos 10-11 anos, mas há garotas precoces, cujos seios já despontam aos oito, e as tardias, aos 14. O ideal é explicar que não existe uma idade certa para ganhar peitos e sutiã e que, portanto, ela deve esperar pela sua hora. “A mãe não tem de dar só porque a filha pediu. Uma menina sem peito usando sutiã será ridicularizada pelos amiguinhos”, diz Magdalena Ramos, do Núcleo de Casal e Família da PUC-SP.

Na dúvida, diz Lidia Aratangy, autora de livros sobre educação familiar, o critério é simples e objetivo: “Quando o bico do seio começar a marcar a blusa”.

Voltar a hora que quiser

A chave de casa é um objeto simbólico de que o filho já tem autonomia e cumpre os compromissos com os pais: chega no horário combinado, telefona se ocorreu um imprevisto, não coloca o lar em risco. “É errado pensar que se deve esperar a maturidade para liberar experiências de independência. A maturidade se conquista com a vivência gradativa dessas vivências”, diz Vera Zimmermann.

O mesmo acontece com as saídas noturnas: primeiro até um horário de início de noite, com adulto acompanhando na ida e na volta. Aos poucos, já por volta de 13-14 anos, até meia-noite, e daí em diante. A psicanalista recomenda que o pai ou a mãe acorde quando o rebento chegar, para observar possíveis sinais de fumaça: ele chega sempre bêbado? Com cara de drogado? Triste? Deprimido? Chorando?

Ensinar a andar de ônibus/metrô

Trata-se de um aprendizado importante, por volta dos 12 ou 13 anos, embora assustador para muitas famílias. “Essa questão é polêmica, pois sabemos do medo da violência que os pais têm hoje, mas nossos filhos precisam aprender a se locomover sozinhos, se virar frente a situações imprevistas, se defender, solucionar situações e buscar ajuda, além de conhecer a cidade em que vivem. É impossível desenvolver essas habilidades sem viver as experiências de fato”, diz a educadora Ivani Ghattas, do colégio Santa Maria.

Inicialmente, eles devem ser acompanhados pelos pais, outros adultos ou de irmãos mais velhos, durante o dia. Esse passo é essencial para formar jovens independentes.

Deixar colocar piercing

Questão que aflige pais e mães, mesmo os mais “modernos”, e que vem gerando discussões cada vez mais cedo. “Piercing é um item complexo e depende da família: algumas não concordam, outras não se incomodam”, diz Ivani Ghattas.

Ela sugere liberar o uso só aos 18 anos, mas, se os pais quiserem permitir antes, é fundamental uma boa conversa sobre os motivos e as responsabilidades. “É preciso verificar se o pré-adolescente consegue higienizar-se adequadamente, para evitar riscos de contaminação. Ele tem que saber que deve fazer a sua parte”, completa.

Se o argumento for “todo mundo está fazendo”, aproveite para ensinar a importância de ter opinião própria: “Eu pediria que meu filho me contasse as três últimas vezes em que conseguiu falar ‘não’ para sua turma. Se ele não se lembrar de nenhuma ocasião assim, pediria para adiar o piercing até fazer essas experiências”, observa Dirce Moretti, do Santo Américo.

Fazer tatuagem

Unanimidade entre os especialistas ouvidos: só deve ser permitida após os 18. “Marcas definitivas no corpo devem ser discutidas, mesmo na adolescência”, diz a psicanalista Vera Zimmermann. “É bom conversar para ver se a tatuagem não pode significar a falta de algo que uma marca não irá preencher.” Necessidade de auto-afirmação, por exemplo.

É preciso ser firme porque nem sempre um adolescente está preparado para decidir sobre os usos de seu corpo. “Tatuagem deve ser feita apenas por indivíduos que tenham autonomia para responder por seus próprios atos”, diz a educadora Ana Lúcia de Carvalho Pereira, do colégio Interlagos.

Fazer escova definitiva

O ideal é a partir dos 16 anos. “É importante não liberar nada que seja definitivo até que a filha seja maior de idade e compreenda exatamente o que está fazendo, mas esse caso não é tão grave porque o cabelo cresce e o efeito se perde”, diz Magdalena Ramos.

Administrar o próprio dinheiro

Segundo Vera Zimmermann, a partir de sete anos a criança já pode receber uma mesada, no início simbólica, “para um chocolate ou sorvete semanal”. Depois, o ideal é acrescentar situações em que ela precise administrar o dinheiro: o lanche escolar da semana inteira, revistas, figurinhas.

“Na adolescência, a quantia da mesada pode incluir os gastos sociais e até roupas. Administrar gastos é uma conquista importante, que requer o monitoramento dos pais de forma gradativa”, explica. “Ter noção dos gastos de uma família ajuda o adolescente a pensar em suas escolhas profissionais, seu lugar no mundo e o que precisa fazer para conquistá-lo.” Lembre-se: se o dinheiro da mesada ou semanada acabou, nada de dar mais antes do dia estipulado.

Tomar bebida alcoólica

Para a pediatra Sandra de Oliveira Campos, professora da Unifesp, a idade de liberar álcool em festinhas de família e socialmente depende da família. “Mas não deve ser antes do ensino médio, quando o adolescente tiver pelo menos 15 anos.”

“Álcool é uma droga estimulante, que pode causar dependência e mal-estar: crianças e adolescentes não sabem o limite, e todo pai deve educar o filho alertando sobre esse perigo”, diz o pediatra Adalberto Stape. De qualquer forma, difícil impedir que ele beba, se tiver vontade: a fiscalização é precária no Brasil. “Os adolescentes estão bebendo muito e isso é um problema sério. Mas o que o pai vai fazer? O máximo que está a seu alcance é conversar e servir de exemplo”, resigna-se Vera Zimmermann.

Deixar o/a namorado/a dormir em casa

Tudo depende da família, se ela se constrange ou não, mas não se trata de “atividade” para o início da adolescência. Educadores recomendam que isso só aconteça por volta dos 18 ou 20 anos.

“Essa questão depende da tolerância dos pais e da competência dos filhos para assumir a vida sexual”, explica Lidia Aratangy. “Para alguns pais, nunca é hora. Vale o respeito mútuo: os pais podem até saber que o filho tem relações, mas ficam emocionalmente perturbados com a idéia de que isso possa acontecer debaixo do seu teto. Nem sempre a emoção dos filhos tem de ser soberana.”

Entrar na academia

Crianças devem praticar esportes, e não entrar numa academia: fazer natação, andar de bicicleta, jogar vôlei ou futebol são indicados. Musculação só depois dos 16 para os meninos e dos 15 para as meninas, já que elas amadurecem mais cedo.

“Musculação faz mal na fase de crescimento, o desenvolvimento ósseo fica anormal”, afirma o pediatra Adalberto Stape, do Einstein. Essa fase de crescimento vai, em média, dos 12 aos 18 anos, para os meninos, e dos 10 aos 16, para as garotas.

Liberar pornografia

Os educadores são claros: pais não devem estimular os filhos a ver revistas com mulheres nuas ou filmes de sacanagem. “Também não tem cabimento ‘deixar’ fazer isso. Além de ser incorreto, nem tem graça para o adolescente que o pai dê permissão. Ele vai ver essas coisas escondido da família, é algo de sua intimidade. Trata-se de uma descoberta a ser feita com o grupo”, diz Magdalena Ramos.

A psicóloga critica os pais que querem ser “moderninhos”. “Eles pensam que ser um pai legal é ser transgressor e amiguinho do filho, mas pai tem que ser pai, impor limites, não pode fumar maconha junto, não pode sair e transar junto.”

Como se trata de “descoberta” natural, que não deve partir de incentivo familiar, crianças expostas a esse tipo de material podem se prejudicar. “Esses pais que soltam ‘Playboy’ nas mãos de filhos de sete, oito anos, não têm noção de que colaboram com a aceleração da angústia sexual dele. A criança vai ser bombardeada por estímulos eróticos que ainda não é capaz de digerir”, explica Vera Zimmermann.

Navegar livremente na internet

MSN, salas de bate-papo, jogos em rede, todo tipo de imagem e informação: a web é um banquete que requer cuidados. Na fase pós-alfabetização, dos sete aos oito anos, é melhor instalar o computador num local movimentado da casa, e não no quarto deles, para que os pais possam monitorar.

“Deixar navegar livremente sem acompanhar pode levá-lo a informações que ele não tem condições de elaborar e entender. É necessário ajudar a desenvolver a crítica do que ele coleta”, recomenda Vera.

Os pais podem “relaxar” na adolescência, por volta dos 14-15 anos, diz. “Levando-se em conta que o trabalho de reflexão sobre valores e experiências já foi feito e está internalizado no jovem, aí já se pode ficar mais tranqüilo.”

Deixar em casa sozinho no final de semana

Quem tem “gente” de 12 anos sabe: de repente ele não quer mais passar os finais de semana com os pais, tem seus próprios programas e interesses e quer independência. Aí entra em cena a idéia de deixar a prole sozinha em casa no sábado e no domingo, com uma babá, empregada ou avó.

“Os pais acham que isso é OK, erroneamente. Esse é o momento do monitoramento perto-longe, de controlar sem ser intrusivo, e esses pais precisam abdicar de muitos programas até os 15, 16 anos deles”, afirma Vera Zimmermann. “O filho precisa saber que os pais estarão ali para perceber se algo estiver estranho, mesmo quando saem sozinhos, ou para dar um colo se algo der errado. E os pais precisam ficar de plantão para qualquer emergência.”

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Dra. Vera Blondina Zimmermann
Dra. em Psicologia Clínica - PUC-SP, Professora afiliada do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo, Coordenadora do Núcleo Bebês com Sinais de Risco em Saúde Mental no mesmo departamento. Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto SEDES SAPIENTIAE onde coordena o curso Clínica Interdisciplinar da Primeira infância.

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