“Projeto identificatório”, suas falhas e implicações nas tarefas da adolescência

As escolhas que necessitam serem feitas na adolescência nem sempre são processos possíveis em tempos determinados pelo social. As formas e tempos de subjetivação colocam a singularidade instituindo os caminhos do possível a ser realizado pelo sujeito e não do desejado pelo social e mesmo, por ele próprio.

É esperado que o adolescente, quando finaliza o ensino-médio, tenha se organizado psiquicamente para fazer sua escolha profissional, ou que, pelo menos, tenha começado a pensar nas linhas mestras de um projeto de vida. Isto significa, a organização interna de uma forma de ser que, ao ser projetada no futuro, sintetiza e explicita o lugar social que deseja ocupar.

Segundo Aulagnier : [1]

  “…o termo adolescente remete ao mesmo tempo a um passado e a um futuro, e dentre as tarefas reorganizadoras da adolescência, uma é determinante para o êxito ou o fracasso dessa reorganização: a tarefa de historizar e memorizar um passado que já está perdido mas que, graças a este trabalho, pode continuar existindo psiquicamente.” (AULAGNIER, 1991, p. 442)

Essa “autobiografia” não é jamais acabada, mas a construção e a reconstrução do passado vivido é condição necessária para que seja possível investir no presente e no futuro. Aulagnier chama de “fundo de memória” os elementos representacionais que constituíram as bases da biografia do sujeito, elementos que precisam estar fazendo nexo com o presente, para que o sujeito não se sinta estranho a si mesmo. Esse ‘ fundo de memória’, garante um ‘capital fantasmático’, através do qual o sujeito decide aproveitar ou rejeitar, de acordo com seu desejo. Assim, ele pode eleger seus objetos de desejo, o que entendemos ser possível a partir de um projeto de vida.

São momentos que dependem da constituição dos mecanismos repressores e da capacidade elaborativa da psique. Também, é necessário que tenha ocorrido um duplo investimento, tanto do sujeito como de suas figuras parentais: o sujeito sabe que sua história é uma história de relações e que foi feita em colaboração com outros, mas estes outros precisam ajudá-lo a apropriar-se dos elementos biográficos, ou melhor, da forma como viveu e sentiu esta caminhada, o que significa, estar em acordo com sua memória.

Na realidade, o que vemos no final do ensino-médio? Muitos sujeitos que não estão prontos para realizar uma síntese de suas vidas, o que é uma condição necessária para concluir sobre seus projetos futuros, inclusive a escolha profissional.

Sabe-se que nosso momento sócio-cultural tem sido responsável por uma maior dificuldades neste processo, hajam visto as mudanças importantes no mercado de trabalho e o ritmo de adaptação cobrado dos indivíduos inseridos na produção. Este fator agrega uma tensão improdutiva nas instituições e na família, com conseqüências igualmente improdutivas no adolescente. Instalam-se mais dúvidas e medos do que normalmente já existem neste período, o que vem a dificultar a boa resolução das questões a serem equacionadas.

Além destas dificuldades provenientes do mundo externo, entre estes sujeitos desta população que se mostra ainda não capaz de efetivar escolhas, temos aqueles sujeitos que são portadores de falhas nos seus “projetos identificatórios”, ou seja, portadores de uma constituição psíquica frágil.

Vejamos como se dá isto, segundo referencial teórico psicanalítico de Piera Aulagnier:

Aulagnier constrói o conceito de “Projeto Identificatório” a partir do conceito freudiano de ideal de ego, definição sintetizada por Freud como “herdeiro do complexo de Édipo”.(FREUD, 1923, p.48) O sujeito, ao eleger seu ideal de ego, diz Freud, domina o Complexo de Édipo; trata-se de uma aquisição que inclui os vínculos ligados a aquisição filogenética do indivíduo, sua “herança arcaica” e substitui o anseio do indivíduo pelo pai.

A partir deste conceito freudiano, define os movimentos psíquicos que a ele concernem como ‘ Projeto Identificatório’: “Por esse termo designamos os enunciados sucessivos pelos quais o sujeito define (para si e para os outros) seu anseio identificatório, ou seja, seu ideal. O ‘projeto’é aquilo que, na cena do consciente, se manifesta como efeito de mecanismos inconscientes próprios da identificação; representa, a cada etapa, o compromisso em ato’.” (AULAGNIER, 1968,p.214)

O eixo básico da problemática identificatória está nas relações de transmissão de um reprimido que foi estabelecido entre quem Aulagnier denomina de ‘porta-voz’ ( quem exerce a função materna) e o corpo do bebê, entre o ‘porta-voz’e a ação repressora (função paterna). A transmissão desse reprimido é a garantia da existência de uma ordem cultural que fazem parte do discurso e do social.

O momento inicial do projeto identificatório do Eu, segundo Aulagnier, precede a dissolução do complexo de Édipo e caracteriza-se pela dependência da idealização dos primeiros objetos. Isto significa que neste momento da constituição do Eu o sujeito espera tornar-se à resposta do que ele acredita ser o desejo materno; ele já está implicado com a idéia de temporalidade, mas ainda ligada ao ideal materno, ou seja, ao desejo da mãe em relação a ele.

O segundo momento do projeto identificatório caracteriza-se pelo reencontro com os objetos do passado: “Quando eu crescer, eu me tornarei aquilo que eu fui.”(AULAGNIER, 1968, p.216)

Esta passagem só é possível se a mãe interditar seu desejo incestuoso pelo filho. Com isto ela protege a si e a criança, confrontando-a com a castração, com os limites de seu poder, com sua sujeição ao desejo do pai e à lei. Assim, o filho investe no futuro, ou seja, abandona seu desejo edípico, substituindo-o pelo projeto identificatório do Eu.

Em síntese, o ‘projeto identificatório’ é uma espécie de troca do drama edípico pelos anseios identificatórios de um ideal para o Eu.Com essa troca, passa a predominar no sujeito a angústia de castração ou angústia de identificação, ou seja, o Eu passa a temer perder suas referências identificatórias. A partir desse momento de identificação simbólica, as perguntas que o sujeito se faz sobre si mesmo já não são respondidas pelo outro, mas sim pelo próprio Eu, a partir da projeção de um estado e um ser que foi no passado, ou seja, a partir de sua história passada.

Porém, é preciso que ele aceite a diferença entre o que é e o que queria ser, projetando para o futuro este encontro; entre o Eu futuro e o Eu atual deve haver uma diferença que representa a prova da castração no registro identificatório, prova que deve deixar intacta a esperança narcisista do encontro futuro entre eles.

“Eu constituído”, portanto, segundo Aulagnier, é um Eu capaz de assumir a experiência de castração, conseqüentemente, a renúncia ao atributo da certeza, o que significa: ele espera tornar-se uma imagem valorizada por ele e pelo meio, ou por um sub grupo que ele valoriza. A esperança de vir a ser esta imagem também é fundamental neste processo que culmina com a constituição do Eu.

O declínio do complexo de Édipo também implica em que o sujeito invista em emblemas identificatórios   ligados ao discurso do meio sócio-cultural, e não só do discurso de alguém único.

Nas palavras de Aulagnier, os dois tempos do “projeto identificatório” manifestam-se assim:

“Enquanto nos mantemos no período que precede a prova da castração e a dissolução do complexo de Édipo, os pontos suspensos remetem a fórmulas que podem ser resumidas assim: a) casarei com mamãe; b) terei todos os objetos que existem. Na fase posterior, o enunciado será completado por um.. .serei isto ( médico, advogado,padre, aposentado). Qualquer que seja o término, que nunca é indiferente, o importante é que deverá designar uma qualidade possível e, sobretudo e antes de tudo, uma qualidade com um sistema de parentesco a que pertence o sujeito. Essa concordância prova o acesso ao registro do simbólico e a uma problemática identificatória adequada a ele.”(AULAGNIER,1975, p. 169)

O ‘projeto identificatório’, portanto, é a construção de uma imagem ideal que o Eu se propõe a si mesmo. Esta imagem pode aparecer num futuro como imagem do reflexo daquela imagem que lhe foi dada em espelho. Em outras palavras, o Eu também é resultado do reflexo, organiza sua demanda identificatória a partir dele, ou seja, do narcisismo infantil,ou seja, ser o objeto de desejo materno.

Ao abandonar a busca de reconhecimento de si mesmo pelo olhar dos outros, por meio da dissolução do Édipo, esta imagem ideal não será mais produto do desejo de um outro Eu apenas. A partir daí, sempre haverá uma diferença entre o Eu futuro e o Eu presente, onde predomina “ a esperança narcísica de um auto-encontro, sempre postergado, entre o Eu e seu ideal, que permitiria a cessação de toda a busca identificatória.”(AULAGNIER, 1975,p. 157)

Em síntese, Aulagnier prioriza três momentos no processo de constituição do Eu, por meio de toda a dialética identificatória acima descrita: o do nascimento do bebê, onde ocorre a identificação primária; o do advento do Eu por meio da identificação imaginária ou especular; o da identificação simbólica, declínio do complexo de Édipo e assunção da castração simbólica, culminando com a identificação ao ‘projeto identificatório’.

Nesta perspectiva, os sujeitos com falhas no ‘projeto identificatório’, apresentam dificuldades para processarem suas histórias pessoais e se engajarem em projetos futuros realísticos. Geralmente ainda buscam o olhar do outro para tranqüilizarem-se, se confundem na análise da realidade que os circunda, estabelecendo causalidades pouco objetivas e pouco ancoradas no princípio de realidade. Parecem estar presos na identificação especular (desejo do outro) de tal forma que a identificação simbólica apresenta prejuízos, bem como o processo de identificação ao projeto identificatório.

Em relação ao registro do sócio-cultural na elaboração do projeto identificatório, Aulagnier define-o enquanto um ‘contrato narcisista’, feito pela criança e o grupo social ao qual pertence, bem como a sociedade que inclui este grupo. (AULAGNIER, 1975, pp. 149-154)

Inicialmente, os pais precisam pré-enunciar e pré-investir o sujeito que irá nascer, bem como, investi-lo após o nascimento. Mas também é fundamental que o grupo reserve um lugar para ela e a designe como ocupante legítimo do mesmo.

Enfatiza que o sujeito precisa, primeiramente, ter recebido e depois, ter se apropriado de uma série de enunciados provenientes do discurso das figuras parentais, para então buscar um grupo que represente estes ideais.

Assim, a criança demandará este reconhecimento ao grupo e este, por sua vez, cobrará dela a preservação dos valores e leis que o compõem. Segundo a autora, a relação que os pais mantêm com a criança apresenta algo de como se relacionam com o seu meio social, cujos ideais compartilham. Os grupos, por sua vez, são constituídos por leis que regem seu funcionamento, definem e impõem objetivos, que, na maioria das vezes, são aceitos pelos sujeitos que veem nisto a representação de um ideal.

Assim, o grupo pré-catexiza o sujeito e garante a ele um lugar de pertinência, esperando que ele cumpra algum papel que fortalecerá o mesmo. O discurso do conjunto oferece ao sujeito uma certeza sobre sua origem, certeza necessária para que ele possa projetar uma dimensão histórica sobre seu passado, já que o saber dos pais não é suficiente para isto.

A influência do meio social no destino do sujeito torna-se importante quando há uma ruptura entre os pais e o grupo, dificultando que o sujeito encontre fora da família um suporte para atingir parte da autonomia necessária às funções do Eu.

A criança investe o grupo e seu modelo, mas exige que lhe assegurem um lugar independente do instituído pelo casal parental; também, seu investimento libidinal no grupo lhe dá como recompensa, usufruir a ilusão de continuidade atemporal por meio dos seus enunciados. Conclui Aulagnier, “o acesso à historicidade é um fator essencial no processo identificatório”, pois dele dependerá a aquisição de uma autonomia necessária para que funcione adequadamente.(AULAGNIER, 1975, p. 151.)

As crianças e adolescentes que apresentam fracasso escolar tendem a gerar um impacto muito grande nos pais, principalmente quando o sucesso escolar é um valor que foi demandado a criança pela família. Há, portanto, uma falha no ‘contrato narcisista’ entre o sujeito e a família, entre o sujeito e o social.

A construção fantasmática feita nos primórdios da constituição do Eu dessas crianças, passa a não ser corrobada pela realidade social na qual será inserida, no caso, a escola, núcleo social fundamental na infância.

A reação de frustração intensa dos pais dos sujeitos que foco está intimamente ligada ao fato de que o rendimento escolar na sociedade moderna é um valor fundamental e, além disso, associado ao êxito social do sujeito como um todo. Portanto, não conseguir acompanhar os objetivos colocados pela escola passa a significar um não cumprimento das leis estabelecidas pelo ‘contrato narcisista’ estabelecido.

Observa-se uma retirada de investimento sobre a criança, quer pela família, quer pela escola, traduzindo-se como um questionamento sobre sua pertinência nestes grupos, o que modifica desta forma o destino de seu psiquismo. As certezas sobre sua origem ficam confusas, o que dificultará montar os quebra-cabeças de suas identificações, projetar-se no futuro, mesmo que as primeiras peças (identificação primária) tenham sido bem encaixadas.

Para Aulagnier existe um risco neste momento da adolescência, porque nesta fase se define o funcionamento psíquico do sujeito. Pode acontecer, no caso de desencontros entre os ideais do sujeito e o social, mesmo ele tendo as peças do seu projeto identificatório aparentemente encaixadas, que ele não reconheça na construção o modelo que deveria ser construído. A esta forma de conflito identificatório, Aulagnier denomina de “potencialidade polimorfa”, que é uma saída encontrada pelo Eu cuja forma se manifesta nas patologias das perversões, nos quadros de somatização, toxicomania, ou na relação passional ou alienante. (AULAGNIER, 1984, p. 231.)

Os sujeitos, neste tipo de potencialidade, passam a buscar modificar a realidade de tal forma que ela seja responsável pelo sofrimento que o Eu padece; qualquer mudança no quebra-cabeça é inaceitável pois ameaça o desencaixe de peças centrais. Resta, portanto, ao sujeito, construtor do projeto identificatório, a possibilidade de fazer de conta que os elementos se equivalem, por meio do uso de mecanismos de ilusão, de distorção.

Nossa proposta para inclusão destes sujeitos: OFICINAS JOVENS- UM ESPAÇO DE PASSAGEM.

Pensamos que a instituição escolar pode oferecer um espaço onde estes adolescentes possam encontrar algumas das respostas para suas necessidades. Trata-se, portanto, de organizar para ele um lugar de passagem entre o ensino-médio e a profissionalização, espaço onde ele possa também ser amparado na tarefa de organizar melhor seus quebra-cabeças de identificações, ou seja, sua história de vida.

Não se trata de atende-lo apenas como um ex-aluno que busca a ex-escola para falar dos seus feitos depois dela, ou para diluir as saudades daquele período. Também, um modelo muito direcionado como os dos cursinhos pré-vestibulares, em muitas situações não respondem as dúvidas existenciais que são de outra natureza, deixando-o só quanto as angústias frente às suas escolhas e o futuro.

A montagem deste espaço não deve transmitir-lhe apenas o passado do ensino-médio, mas também não configurar algo totalmente novo como é o da profissionalização.

O que faz parte do passado é atualizado na escuta de suas necessidades e reflexão organizada para elas; um tempo maior de historizar-se a partir de atividades que indiretamente o levem a reflexões.

Podemos perguntar-nos: não seria este o espaço de um tratamento individual? Pensamos que sim, quando o sujeito o busca. Entendemos, porém, que uma instituição escolar enquanto representante do social, é portadora de significantes muito valorizados na adolescência, podendo também participar desta tarefa colaborando para a melhor organização do ‘projeto identificatório’ de adolescentes.

Não estamos falando de um trabalho de ‘orientação vocacional’, nem de psicoterapia, trabalhos que são muitas vezes indispensáveis. Mas de um espaço que complemente processos terapêuticos, por meio de diferentes oficinas que possibilitem um tempo maior para o sujeito transitar e refletir sobre suas identificações, sem sentir-se excluído do social por ainda não estar pronto para a próxima etapa.

Acreditamos que para uma população de sujeitos já fragilizada pela quebra de ‘contrato narcisista’com a família e o social a partir dos fracassos de aprendizagem e/ou por outras falhas no seu processo de subjetivação, é necessário que seja construído um espaço mais circunscrito as suas necessidades. O vazio social que existe entre o ensino-médio e a profissionalização ( universidade ou outro meio), aumenta o risco do adolescente firma-se em patologias que colocam em risco o seu futuro identificatório, o que pode vir a ser excluído do social na vida adulta.

O Colégio Graphein vem procurando responder este tipo de demanda, investigando e propondo soluções, entre elas OFICINAS JOVENS, que agora tentaremos explicitar.  

Bibliografia:

  1. AULAGNIER, Piera. (1989) Construir(se) un pasado.Adolescência,Psicoanálises-Revista de la Asociación Psicoanalítica de Buenos Aires, vol.XIII, número 3,1991.
  1. FREUD, Sigmund. (1923) O ego e o id. ESB, vol. XII.
  2. AULAGNIER,Piera. (1968) Um intérprete em busca do sentido-I. São Paulo, Escuta,1990.
  1. _________________ (1975) A violência da interpretação. Do pictograma ao enunciado. Rio, Imago, 1979.
  1. __________________(1984) O aprendiz de historiador e o mestre-feiticeiro-do discurso identificante ao discurso delirante. São Paulo, escuta,1989.

[1] Aulagnier, Aulagnier. (1991), Construir-se um passado. p. 442.

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Dra. Vera Blondina Zimmermann
Dra. em Psicologia Clínica - PUC-SP, Professora afiliada do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo, Coordenadora do Núcleo Bebês com Sinais de Risco em Saúde Mental no mesmo departamento. Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto SEDES SAPIENTIAE onde coordena o curso Clínica Interdisciplinar da Primeira infância.

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