A idade dos porquês

Entrevista: Bolsa de Bebê
29/04/2009
Por Luana Martins

Curiosidade é fundamental para um desenvolvimento saudável na infância

– Pai, por que você trabalha?
– Para ganhar dinheiro.
– E por que ganhar dinheiro?
– Para pagar as contas, filho.
– E depois de pagar as contas?
– Se sobrar alguma coisa, eu guardo.
– Onde?
– No banco.
– E até quando você vai trabalhar?
– Até me aposentar.
– E depois que se aposentar?
– Não sei, ainda falta muito tempo, filho.
– Quanto tempo?
– Tanto tempo que você já vai ser adulto.
– E o que eu vou fazer quando for adulto?
– Trabalhar.
– E trabalhar por quê?
– Ah, menino, me deixa ler o jornal e vá perguntar para sua mãe”.

Que as crianças são mesmo curiosas e possuem uma mente fértil, não há dúvidas. Certamente, você já foi pego de surpresa com alguma dúvida cabeluda dessas de colocar qualquer “de onde vêm os bebês” no chinelo. O que você faria se seu filho viesse com as perguntas: “Quem criou Deus?”, “Se o ar está poluído, por que não desligam as indústrias?”, “É verdade que, se os peixes-boi forem extintos, não haverá mais chocolate?”. Sair correndo não vale. Nem rir.

Despertada a partir dos três anos, a curiosidade é fundamental para o desenvolvimento do baixinho. “A curiosidade é saudável e necessária. É ela que leva à compreensão de si, do outro e do universo. Quando incentivada por pais e educadores, faz com que a criança queira, cada vez mais, adquirir novos conhecimentos. Se não for encorajada pode gerar falta de confiança, medo e até sentimentos repressivos”, revela a psicóloga e escritora Cristina Locatelli.

Despertando a curiosidade

Ainda que muitos pais achem que a criança só desperta sua habilidade de detetive aos três anos de idade, a curiosidade costuma dar o ar da graça bem antes disso. “Ela aparece no momento em que o pequeno vê o mundo pela primeira vez. Claro que de um modo mais elementar: através dos sons, paladar, contato e observação dos movimentos ao redor. Quando cresce e domina a fala, passa a se manifestar através de perguntas”, esclarece Cristina. “Primeiramente, a curiosidade é formulada através do nome das coisas (o que é isto?). Apenas quando a criança ganha um determinado nível de individuação (observa o mundo separado de si) e começa a perceber que existe uma relação de causa e efeito entre as coisas, passa a questionar sua funcionalidade e causalidade (por que?)”, acrescenta a psicóloga Vera Zimmermann.

” Vale lembrar que até os seis anos de idade, a causalidade tem uma lógica mágica, sem o caráter de uma observação científica. Logo, se a mãe ficou doente após brigar com a criança, por exemplo, ela pode concluir que fez a mãe chegar a esse estado”, explica Vera.

A economista Andressa Barros (37 anos) viu-se numa encruzilhada quando o pequeno Filipe (seis anos) veio com a seguinte dúvida: “Mamãe, o que é sexo?”. “No primeiro momento fiquei sem reação. Como meu filho, tão pequeno, podia estar perguntando aquelas coisas?”, questionou-se Andressa. Por mais complexas que as perguntas possam ser, elas precisam de respostas. “Todas as dúvidas devem ser esclarecidas, pois faz parte do processo educativo. O único cuidado que se deve ter é com a forma de dizer as coisas para não magoar, gerar traumas ou fantasias assustadoras na criança”, alerta Cristina. “Uma dica é, antes de ir respondendo, verificar o nível da dúvida – o que a criança sabe sobre a questão e o que ela realmente quer saber. Nem sempre a resposta mais longa e elaborada é a melhor. Existem níveis de assimilação de acordo coma faixa etária”, afirma Vera.

Pesquisadores teorizam que o século XXI marcará a
vigência de uma “era da resignação”, na qual as crianças
deixarão de lado os porquês

Segundo os especialistas, devolver a pergunta para a criança pode ser uma boa forma de descobrir o que ela sabe sobre o assunto. “De quebra, os pais conhecem o que a criança pensa, estimulam o raciocínio, a criatividade, a multiplicidade de hipóteses, estabelecendo uma forma de diálogo com ela”, enfatiza Cristina. Foi exatamente o que Andressa fez. “Primeiro eu perguntei onde ele tinha escutado aquilo e descobri que havia sido de um coleguinha da escola. Por um momento pensei em desconversar ou contar uma historinha do tipo ‘a cegonha’ mas percebi que não seria a melhor solução. Ele poderia vir a descobrir a verdade e perder a confiança em mim”, conta a economista.

Quando os pais desconheçam a resposta, nada de rodeios. É preciso deixar isso claro. “Seja honesto e diga que não sabe, mas vai se informar”, aconselha Vera. Se os pais sabem a resposta, mas julgam que não se adapta à maturidade da criança “é preciso responder da forma mais simples possível. Por exemplo, se a criança vem com a famosa pergunta de onde vêm os bebês, os pais devem responder: ‘Vêm da barriga da mamãe’. Muitas vezes, isso é suficiente. Não é necessário responder nada que a criança não esteja perguntando”, afirma Cristina. Se precisar, repita as explicações procurando ser coerente ou a criança poderá ficar confusa. Andressa seguiu o conselho: “Respondi ao Lipe que sexo é um nome especial dado ao namoro entre o papai e a mamãe quando decidem que querem ter um filhotinho. Ele se deu por satisfeito. Parece que só queria mesmo uma resposta”, relembra Andressa.

A era da resignação

Pesquisadores teorizam que o século XXI marcará a vigência de uma “era da resignação”, na qual as crianças deixarão de lado os porquês por não se preocuparem mais com o entendimento das coisas. O culpado por essa mudança seria o excesso de informações disponíveis sobretudo na televisão e na Internet. Para Cristina não é bem assim que a banda toca. “Toda criança é curiosa. A resignação só ocorre se alguém poda repetidamente essa curiosidade natural, ocasionando uma retração e uma observação passiva dos fatos que terá como conseqüência um menor interesse pelo conhecimento e pelo aprendizado”, afirma a especialista.

Mas o excesso de informações pode ser, sim, prejudicial. “Ele impossibilita a assimilação verdadeira. O que a criança guarda é um amontoado de informações não digeridas, causando confusão e não aprendizado”, afirma Vera. “Além disso, as crianças podem acabar tendo queimadas etapas evolutivas pelo contato precoce com estímulos como os sexuais, por exemplo, que só surgiriam numa idade mais avançada”, acrescenta Cristina. Para minimizar esse efeito, um conselho: “As informações devem ser monitoradas pelos adultos para que possam ser melhor processadas e aproveitadas com a experiência real da criança”, recomenda Vera.

Matéria – Portal Bolsa de Bebê

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Dra. Vera Blondina Zimmermann
Dra. em Psicologia Clínica - PUC-SP, Professora afiliada do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo, Coordenadora do Núcleo Bebês com Sinais de Risco em Saúde Mental no mesmo departamento. Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto SEDES SAPIENTIAE onde coordena o curso Clínica Interdisciplinar da Primeira infância.

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