A globalização e sua repercussão na educação e desenvolvimento da criança e do adolescente

Trabalho para o Congresso da FLAPIA

Gostaríamos de dizer da nossa satisfação em participar da discussão de uma temática tão relevante, bem como estar com profissionais, na mesa e no público, que certamente me acrescentarão muito através de suas colocações.

Organizamos uma tentativa de reflexão que partirá de uma conceituação básica de globalização e seus efeitos mais gerais no sócio-cultural e depois procuraremos centrar em algumas particularidades incidentes na constituição do sujeito psíquico, na família e escola.

Ressalto, antes de iniciar a análise destes aspectos, que em nenhum momento quero caracterizar minha fala como lamento pelo avanço dos processos tecnológicos. Acredito que neste momento devemos usar nossa energia para pensar soluções, uma tentativa de entender e lidar melhor com os novos processos , redimensioná-los e operacionalizá-los a nível familiar e educacional.

Entendemos que as consequências mais gerais do que se conceitua como “globalização” é a aceleração e a internacionalização do processo de informação.

Temos mais no imediato questões tais como: o ser humano apreensivo, inseguro para acompanhar as mudanças e organizar este acúmulo de informações, das quais não pode fugir sob pena de desadaptar-se no meio em que vive; grandes modificações no campo de trabalho e novas formas de funcionamento exigidas, organizando um novo perfil profissional, tanto na formação dos conhecimentos técnicos como nas características de personalidade; uma nova geração já integrada perceptivamente em novas formas de apreensão do mundo, mas bastante solitária nesta caminhada pela insegurança e/ou impossibilidade dos pais e educadores responderem ao novo ritmo.

Pensemos em algumas questões mais específicas e pertinentes ao processo do desenvolvimento que nos interessa discutir neste momento. A capacidade de lidar com o novo sempre foi algo fundamental para o desenvolvimento eficaz do ser humano; agora a velocidade das novidades acabam pondo em risco a própria capacidade dele assombrar-se com a novidade, refletir sobre as diferenças entre os objetos ou situações. Não dá tempo para “assombrar-se”, momento que sempre julgamos tão importante para o desenvolvimento em se falando do prazer de descobrir, de aprender e sua consequente satisfação de sentir-se produtivo. As novidades ocorrem num ritmo que roubam este espaço do “assombro”, do prazer, da reflexão e internalização, isto pensando conforme modelos que conhecemos. Surgem condutas de aparente “descaso” que assemelham-se a atitudes defensivas.

Quando falamos neste ritmo cada vez mais acelerado não podemos deixar de lembrar um conceito da fisiologia de Claude Bernard : Ecosistemas apresentam capacidade de auto-recomposição desde que a agressão ao que podemos denominar de suas variáveis essenciais não ultrapasse determinados limites. Ultrapassagem que, ocorrendo , retira do sistema a aptidão de, espontaneamente, recompor-se, uma vez cessada a agressão.

Na natureza e no social observa-se que estas situações de “ultrapassagem” acabam, após período de intensa crise no referido ecossistema, levando-o a uma reorganização, um reagrupamento que forma uma nova identidade.

Pensando que a nossa geração está neste momento da curva, isto é , no momento da crise, dos limites do suportável, podemos associar com este período o surgimento de novas patologias que emergem do social : por ex a “doença do pânico”, representando a vivência da desintegração e desorientação, o encontro do homem com o trágico, uma sensação de enlouquecimento do corpo, um perigo de perda da organicidade.

Verifica-se que nossos modos de subjetivação não dão conta destas mudanças . Toda nossa subjetividade está centrada no outro, somos constituídos na relação com o “outro”. A velocidade e fugacidade das relações com os objetos, pessoas, informações, produzem toda esta vivência de desorientação e desitengração.

A noção de autoridade que era centrada na família, estabelecendo uma base identificatória mais delimitada para a criança, agora é internacionalizada, sai dos limites dos pais e corre o risco de dissolver-se, ou então, organizar-se de outras formas. Os pais inseguros pela velocidade das mudanças, além de não conseguir mais ter graus de certeza para ter e afirmar uma gama básica de valores, reforçam a busca destes valores fora da família, principalmente nos meios de comunicação, agora internacionalizados e discrepantes nos modos de perceber o mundo.

Aquilo que pode ser algo maravilhoso para o desenvolvimento, ou seja, ver o mundo sob diferentes ângulos, pode ser desastroso, no sentido de não possibilitar um eixo básico organizador daquele sujeito que está se constituindo. Pelo menos não daquele tipo de sujeito que até então pensamos – forçosamente teremos outra organização psíquica, que não podemos dizer se é melhor ou pior. É claro que será pior do nosso ponto de vista, sujeitos organizados segundo os padrões que estão mudando.

As relações com os objetos e pessoas por serem fugazes, ocosionam uma dominância da fragmentação subjetiva, da superficialidade, do vazio e da indiferença social. Diminuem as paixões pelo coletivo e cria-se paixões pelo próprio eu, fragilizados na afetividade, organizadas esquizóidamente, marcadas pelo vazio.

O empobrecimento da possibilidade de surpreender-se com o novo e as diferenças rouba parte da capacidade de fantasiar, jogar prazeirosamente com a realidade. Há uma crescente indiferença para com os fenômenos que acontecem ao redor, neutralizando o desejo. Um exemplo mais corriqueiro que me surge agora é o crescente avanço de técnicas de vendas: cada dia que passa novas e mirabolantes estratégias são desenhadas para chamar a atenção do consumidor, que se mostra indiferente aos estímulos convencionais. Tive que rir sozinha quando vi um carro suspenso por um guindaste em frente a uma revenda de carros. Podemos interpretar como desespero de vender, mas penso ser mais o “desespero” frente a indiferença perceptiva na qual o ser humano já está situado. Os “objetos” estão ali, “presentes”mas de forma “ausente”. Como se diz na gíria, só “plantando bananeira”para chamar a atenção.

O adolescente que por si só já necessita marcar espaço de forma mais gritante em qualquer organização social, nesta época precisa “plantar bananeiras” com tatuagens no corpo e “pseudo assinaturas”nos muros e prédios, se possível, nas pontes das marginais.

Esta velocidade e volume de informações também incide nos processos de aprendizagem, mais especificamente na construção de noções temporo-espaciais.

Sabemos que a noção de “eu” organiza-se num tempo de vivências possibilitadas pela existência de um fundo de memória. O passado perdido recupera-se e se transforma graças a esta memória e a capacidade do sujeito falar, o que recria constantemente este passado. Para que o sujeito sinta-se autor de sua história é preciso este relembrar e recontar, num processo de construção e reconstrução permanente. Neste modelo o tempo de permanência do fenômeno é importante para sua internalização.

A velocidade dos mundos virtuais formam uma nova maneira de representação do tempo e consequentemente dessa organização de sujeito.

A unidade de tempo é o nanosegundo – um milionéssimo de segundo, fora da escala humana, o instantâneo ultrapassou a cronologia, o antes confundiu-se com o depois. Fenômenos que eram observados de forma concreta, agora são indetectáveis aos olhos humanos, o processo a ser aprendido se torna inivisível.: ex – relógio digital ou aparelhos miniaturizados.

O que isto acarreta? A criança tem menos oportunidade de registrar a essência do fenômeno, de apropiar-se da vivência corporal com ele e registrá-lo na sua memória, consequentemente , apropriar-se deste conhecimento como seu. Isto, pensando nos modelos de aprendizagem que conhecemos até agora.

Ao mesmo tempo que a escola precisa pensar neste princípio da aprendizagem, ou seja, modos de apropriação pela memória, ela enfrenta o descaso da criança pelas formas de estímulos perceptivas que não sejam o “instantâneo”do video clip. A apreensão do conhecimento já não se processa predominantemente no “linear” mas sim no “instantâneo”. Os livros tornam-se “chatos” e abandona-se o raciocínio cartesiano, o que por sua vez, enriquece os processos cognitivos.

Fica a pergunta: como possibilitar que o sujeito perceba o fenômeno, discrimine suas diferenças e o vivencie a ponto de rete-lo no seu fundo de memória, para “jogar”com ele prazeirosamente nas próximas aquisições. Ou melhor, como trabalhar com a apreensão “instantânea” sem empobrecer o fundo de memória que sustenta a organização do “eu” e do próprio processo de aprender ? É o desafio da pedagogia para nossa época!

Também, como trabalhar com esta apreensão instantânea sem tornar o meio a mensagem, sem usar dispositivos de efeitos especiais incompatíveis com a capacidade de apreensão do ser humano normal , como no caso do desenho japonês que provocou sintomas epilépticos?

Falo em “desafio”para a pedagogia porque os educadores responsáveis pelas novas gerações estão na sua maioria “em crise” frente aos novos modelos de subjetivação, no caso, tiveram seus processos de aprendizagem dentro de outros parâmetros, por ex, na apreensão “linear”e não “instantânea”. Fica difícil para a geração de adultos de agora criar novas formas de intervenção pedagógica que pelo menos acompanhem os processos atuais, pois nós mesmos temos resistências para adaptar-nos ao existente. Isto sem pensar que, enquanto educadores, precisaríamos também estar “na frente”, pensando estratégias estimuladoras para os processos de aprendizagem compatíveis com os da geração que vem aí.

O mesmo acontece com os pais : organizados em modelos de formação profissionais estáveis, quase sempre mantendo uma atividade durante suas vidas, agora devem preparar o filho prepare-se para um modelo de formação capaz de transitar pelas mudanças rápidas dos mercados de trabalho. As crianças e adolescentes de hoje certamente ocuparão durante suas vidas diferentes tarefas, talvez em áreas contraditórias. Terão que manter outro tipo de vínculo com a sua própria formação, pois o que o mercado pede hoje amanhã poderá ser obsoleto, na mesma velocidade que uma máquina é suplantada.

Porém, pensamos que a tarefa mais difícil dos pais é a de manter nesta nova situação, uma coluna dorsal de representações familiares que possibilitem à criança desenvolver uma estrutura onde o “eu” esteja firme, onde a diversidade e a transitoriedade não acarrete um sujeito “alienado” de si mesmo. Mesmo que ela esteja diariamente bombardeada por diferentes valores e estímulos, possa sentir-se ligada a algum padrão de referência que funcione como um organizador para que se possa diferenciar e constituir-se na individualidade que caracteriza o ser humano.

Neste sentido, é necessário que os pais mantenham padrões de conduta com um nível de coerência capaz de produzir na criança um sentimento de proteção, sentimento que advém de um nível mínimo de repetição de atitudes e valores. Assim também desenvolve-se a noção de autoridade, de modelos de identificação que fortalecem o desenvolvimento do eu, dando um núcleo básico e sólido para enfrentar as mudanças futuras sem desorganização.

Para que um sujeito possa conhecer e conhecer-se precisa de um certo equilibrio nos processos de presença e de mundança nos fenômenos. Todo este ritmo mudou , é nosso desafio criarmos formas novas e readaptar as antigas, para que não perca características que julgamos serem indispensáveis “ao ser humano”, se tivermos condições para faze-lo!

Esta tarefa tem sido muito difícil, principalmente porque nossa geração criada com bases educacionais, por ex, na apreensão linear, está insegura na apreensão instanânea e acaba deixando os filhos solitários nas vivências diferentes das deles. As escolas queixam-se do abandono dos pais, da pouca participação. Penso que a maioria destes pais acha que a escola sabe melhor o que fazer com estas novas formas de funcionar e, portanto, delega à ela esta tarefa, mais por insegurança do que por falta de amor. Mas os pais não se dão conta que os professores são da mesma geração que a deles e estão talvez, tão inseguros quanto eles.

Cabe a todos nós, profissionais que atendem as crianças e adolescentes, estimular as famílias e educadores a manterem suas presenças e valores, independente deles estarem inseguros quanto ao certo errado. O mais importante é marcar a presença, não abandonar, firmar as funções parentais através do existir, do fazer, não relegando estes papéis apenas aos meios de comunicação. Trata-se de um momento onde a presença ativa dos pais faz-se essencial: mostrar uma base de valores, acompanhar os filhos frente a variedade de estímulos ajudando-o a criticar e diferenciar, a posicionar-se. Tudo isto na busca de manter aquilo que sempre pensamos ser o básico do humano: a singularidade.

Os profissionais podem estar ajudando os pais no sentido de fortalecer sua autoridade e segurança, em vez de criticá-los e assumir suas funções. Ajudá-los a pensar, a desenvolver o bom senso que o vínculo amoroso lhes permite de forma tão mais eficaz que os raciocínios apenas técnicos.

Todas as características sócio-culturais organizadas em torno do processo que se denomina globalização e discutidas até aqui, demandam um sujeito bem estruturado, capaz de sustentar mudanças de todos os níveis, flexibilidade frente as diferenças, capacidade de reorganizar-se. Este sujeito só pode advir de uma experiência excitosa das funções materna e paterna e é por isto que nossa preocupação deve centrar-se em fortalecer estas funções de todas as formas que nos for possível.

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Dra. Vera Blondina Zimmermann
Dra. em Psicologia Clínica - PUC-SP, Professora afiliada do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo, Coordenadora do Núcleo Bebês com Sinais de Risco em Saúde Mental no mesmo departamento. Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto SEDES SAPIENTIAE onde coordena o curso Clínica Interdisciplinar da Primeira infância.

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